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*Blog Raul Machado: http://raulmachado.blogspot.com/


segunda-feira, 29 de março de 2010

Obras no CIC, Cine-Clube e Abaixo-Assinado

Olá Arterizantes,

As obras que estão sendo realizadas no CIC (Centro Integrado de Cultura), em Florianópolis, são totalmente necessárias para a expansão em tamanho e qualidade do espaço cultural. A questão é que os prazos para a finalização destas obras já foram adiados três vezes. E ao invés de deslocarem as atividades, como as Oficinas de Arte e o Cine-Clube Nossa Senhora do Desterro, para outros espaços com o intuito de continuar oferecendo ao público ilhéu estes “serviços” culturais que ainda são tão parcos por aqui, elas foram paralisadas durante as obras. Ou seja, o público anda carente!
A atual previsão de reabertura do CIC é para Dezembro deste ano. Em relação ao Cine-Clube do CIC em particular, a previsão é que volte a funcionar já em Julho, mesma data que pede o abaixo-assinado no link que estamos repassando logo abaixo. Mesmo assim, não custa dar uma pressionada, mostrar que o público artístico-cultural existe e reclama, para que os prazos não sejam novamente adiados, pois já sabem né, obra pública + ano eleitoral = é muito fácil eles se (nos) enrolarem.
No link, mais informações sobre o abaixo-assinado e a possibilidade de vocês o assinarem:

http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/5812

terça-feira, 23 de março de 2010

Jornal Arterizar Número 02 no Blog [Fotos da última página]

*Parte da Página 08.
Arte na Rua

Fotografias tiradas com o objetivo de mostrar uma forma de arte ainda subjugada e mal entendida pela maioria das pessoas. Como qualquer outra pintura, o Grafite exige técnica e precisão, resultando em uma mescla de cores e formas próprias.

Fotos de Gustavo Costa

*Legendas:

Bebê: São Paulo; junho 2009
Todas outras: Floripa, agosto 2009

Jornal Arterizar Número 02 no Blog

P1


JORNAL ARTERIZAR
Florianópolis Setembro de 2009 – Número 02
Arte & Sociedade

Apresentação

Papel. Risco. Sonhos. Imagens. Idéias. Palavras.
Susto. Prazer. Hmm... Cá estamos novamente, entre o monopólio dos teclados virtuais e o tempo que insiste em escorrer, lançando um jornal. Sejam bem-vindos ao segundo número deste portal de comunicação do Coletivo Arterizar. “Acho que estou aprendendo a conjugar o verbo Arte”, declarou Artério Arteiro, nosso esquizofrênico integrante, pintando um sorriso no próprio rosto. Estamos sempre abertos a participações, sugestões, etc. Esta edição está Pop!Boa leitura.

Nesta Edição:

-Michael Jackson, por Artério Arteiro (o puxa-saco)
-Memórias Póstumas – Bernardo Cid, por Caio Marques
-Conto e poemas, por Raul Machado
-Pop-Art, por Raul Machado
-Salvador/BA, por Natália Pelosi
-Fotografias, por Gustavo Costa
-Desenhos, por Fernando Bijos e Natália Pelosi

QUERO MAIS

coletivoarterizar.blogspot.com

-Acompanhe nosso blog! Lá poderás conferir novos artigos, trabalhos artísticos, divulgações de eventos, notícias sobre nossas exposições, entrevistas, etc.
-E-mail para contato: coletivoarterizar@yahoo.com.br

*O Coletivo Arterizar declara seu apoio aos artistas de rua de Floripa. Recentemente eles foram proibidos de trabalharem nos semáforos. Em nosso blog há um texto relativo ao assunto. p2

O Monstro do Pop

E aí pessoal, aqui quem vos fala é Artério Arteiro (exatamente, aquele com cara de palhaço). Normalmente me pedem para escrever a crítica cultural do Jornal, mas decidi subverter. Também por que esta edição foi invadida pela Pop-Art (poparterizamos tudo como vocês poderão ver), mas muito mais do que simplesmente por isto, resolvi escrever-lhes sobre o Rei do Pop.
Não estou falando de Andy Warhol nem de Roy Fox Liechtenstein, e nem mesmo da mulher melancia. Estou falando da criança/adulto que se tornaria o adulto/criança, o menino nascido no reino de um tirano (seu pai) e que aprendera a voar para sair de suas garras, o Peter Pan contemporâneo que encantou, revolucionou e chocou o mundo Pop.
Ele nasceu Pop. Aprendeu e ensinou o “ABC” cantando e dançando nos palcos com seus irmãos, com um groove e uma voz de um aperfeiçoado James Brown. Ele criou um estilo próprio de dança, imitado ao redor de todo o mundo. Ele andou para trás, no seu “moonwalk”, talvez na busca de sua infância, talvez não. Ele criou a “dança do robô”. Ele apresentou shows grandiosos e cheios de efeitos, emprestando de sua amiga, a fada Sininho, o mágico pó-de-pirlimpimpim. Ele revolucionou a arte do vídeo-clipe, com “Thriller”. Ele vendeu, e muito. É dele o disco musical mais vendido da história e continua vendendo, mesmo na era da internet e do mp3. Ele coleciona recordes mundiais de venda e de público.
Ele abalou e modificou o Pop, e foi também vítima dele. Nasceu negro e de black power, morreu branco, frágil, de cabelos lisos e nariz fino, ridicularizado pela mídia de “famosos”.
Isolou-se entre rodas gigantes, carrosséis e muitas luzes pisca-pisca, e entre os poucos que desfrutavam de sua companhia e amizade estava Bubbles, seu adorado chimpanzé.
Sua misteriosa relação com crianças, em que dizia apenas contar histórias e dar biscoitos com leite quente para elas dormirem, fez sua imagem ser envolta por uma névoa densa e transformá-la num monstro (aquele que mostra).
Fez o mundo dançar, fez o mundo se assustar com as bizarrices e excentricidades de um artista inocentemente genial, fez o mundo lhe acompanhar, fez o mundo chorar. Globalizou um sentimento de amor e repulsa por sua pessoa. Em um momento “irreverente” até confundiu seu filho com um chocalho!
Mas quando eu soube de sua morte a primeira coisa que fiz foi colocar seu disco para tocar, e bem alto, estremecendo meu circo e minhas sonhadoras nuvens. Seus gritos de ¨iiiíí¨, tão carregados de sentimento entre sons magistralmente orquestrados por Quincy Jones, fizeram com que de pouco em pouco moradores das nuvens vizinhas colocassem os discos do Rei para tocar também, criando uma comoção geral, principalmente na nuvem dos dançarinos e na dos que viveram os anos de 1980. Nem ao menos precisei desenhar uma lágrima azul escorrendo dos meus olhos maquiados.
Proponho, então, um brinde. Um brinde alcoólico, nostálgico e cheio de remelexos a esta criança exibida que foi, e ainda é, o Rei do Pop: Michael Jackson! Agora, longe desta sociedade do espetáculo, ele está finalmente na Terra do Nunca.

“As fotos não são suficientes?/ Por que você faz tanta coisa/ Para conseguir a história que precisa/ Para poder acabar comigo/ Você deixou as pessoas confusas, contando as histórias que escolhe/ Você tenta mudar o homem que eu realmente sou/ Você continua me assediando, invadindo minha privacidade/ Por que não deixa eu viver minha vida/ Suas câmeras não podem controlar, a mente daqueles que sabem/ Que você venderia até sua alma para vender uma história/ Preciso da minha privacidade, preciso da minha privacidade/ Então paparazzi, fiquem longe de mim”

(Michael Jackson, na música “Privacy”, do disco “Invincible”, de 2001).

Por Artério Arteiro



P3
Memórias Póstumas: Bernardo Cid, pintor e escultor.

Essa nova seção no jornal tem como objetivo resgatar a história de artistas que foram esquecidos por olhos desatentos, trazendo suas trajetórias à tona, dilatando pupilas de pedras adormecidas, através de entrevistas com pessoas que tiveram relacionamento próximo com o artista, tanto com a sua arte quanto com sua vida pessoal.
O artista escolhido para inaugurar essa seção é Bernardo Cid, pintor e escultor, nascido na década de 1920. Autodidata, inicia suas atividades artísticas em 1945, estudando pintura, escultura e desenho. Expõe, em 1952, sua primeira individual com pinturas e esculturas, na Galeria Ambiente, em São Paulo. Em 1959, ganha o concurso de escultura, instituído pela Câmara Brasileira do Livro, sendo responsável pela elaboração da estatueta Jabuti. Recebe, em 1966, o primeiro prêmio de pintura no Salão da Primavera de Curitiba, e em 1968, ganha o primeiro prêmio no Salão Paulista de Arte Moderna. Depois de um primeiro período figurativo, passa por uma breve fase abstracionista e informal, que lhe permite um aprimoramento espacial e uma diminuição nos excessivos grafismos das obras anteriores. Retornando para a pintura figurativa, atribuiu novos valores à matéria pictórica, como o uso de colagens, símbolos gráficos e de poesia concreta, participando em 1965, da exposição “Proposta 65” no Museu de Arte Brasileira - MAB-FAAP. Em 1968, integra o Grupo Austral, um movimento artístico internacional sediado em Paris e com desdobramentos no Brasil, ligado ao grupo Phases. No final da década de 1960, inicia trabalhos com um enfoque social, transitando do realismo mágico para um realismo com influências da pop arte. (Fonte: Enciclopédia de Artes Visuais do Itaú Cultural).
Nossa entrevistada é Lúcia Kairovsky, viúva de Bernardo Cid, educadora e que nos momentos vagos dedica-se a arte. Ela e Bernardo se conheceram no final de 64, através de amigos em comum. Segundo Lúcia, a frase que sintetiza as influências absorvidas pelo artista vem de um apreciador de seu trabalho, o físico Mário Schenberg: "Existe uma realidade que o artista cria usando como elementos a sua vida e sua experiência". Para ela, o artista pertenceu ao seu tempo e às possibilidades que lhe surgiram de participação no universo artístico naquele momento, um exemplo disso é sua oposição à ditadura militar. Uma oposição praticada não através do ativismo político, mas através das suas obras.
Bernardo Cid participou do Grupo Phases, um grupo de artistas com sede em Paris que trouxe na época a perspectiva das figurações fantásticas vindas do Surrealismo. A proposta era criar um ambiente livre para a imaginação. Lúcia diz que as denominações dadas às diversas fases do trabalho de Bernardo Cid (abstrata, figurativa, realismo fantástico) partiram dos críticos, e enfatiza que o artista era movido simplesmente pela necessidade de criar, nomeando seus trabalhos por números (exemplo: Integrações 1,2,3), raramente colocando algum título. Teve como principal parceiro o poeta Pedro Xisto, com quem realizou obras que uniram a poesia concreta com as suas imagens.
Para Lúcia, a arte de Cid não foi devidamente absorvida pelo mercado de arte ou não foi absorvida de forma relevante como mereceria e deveria. Tal fato ela explica ao descrevê-lo como um homem discreto, sem anseio de estar à procura de contatos que poderiam ter lhe valido maior repercussão no meio artístico. Nomes significativos e conhecedores das artes como Pedroso D’Horta e Bardi, entre outros, apreciavam muito as obras de Cid.
Publicou também um livro dedicado ao público infantil, com histórias e desenhos que mostrava ao seu único filho, Tiago. Descrito com um pintor apurado e litogravurista da melhor qualidade, apoiou a Escola de Arte Ciclo, mantida por Lúcia, contribuindo com a sua enorme habilidade na criação de brinquedos e com trabalhos em madeira junto às crianças. Participou também da exposição “Propostas 65” com Wesley Duke Lee, Tomoshige Kusuno, entre outros, e foi quando se aproximou da Pop-Arte através do Realismo Pop.
Já nos últimos anos de vida criou 75 ou mais litogravuras no Atelier Imagos. Morreu aos 57 anos, vítima de câncer, em um momento que, para Lúcia, o seu trabalho começava a ganhar maior penetração no mercado artístico e que ele já amadurecia idéias para novas criações. É nítida em seus trabalhos a relação íntima entre vida e obra.
Cid deixou-nos um legado muitas vezes esquecido pela grande mídia, porém marcante, rico em detalhes e de grande qualidade.

Por Caio Marques
P4
Conto: O Teatro

As cortinas se fecharam, escondendo o elenco por detrás dos panos escuros. A platéia acendeu suas lamparinas e encaminhou-se para a saída. Não se ouviram aplausos nem vaias, apenas resmungos desconexos assobiados timidamente no pé do ouvido do acompanhante, ao passo que todos tentavam entender o próprio resmungo e o assobio dos outros ao mesmo tempo. Era teatro, mas parecia que a televisão estava fora do ar, e muda.
Ainda cegos da luz que agora os iluminavam, a platéia atordoada caminhava em descompasso e tentava olhar a si mesma, acuada no hall, sem o mínimo sucesso. O riscar do isqueiro, o papel se desdobrando, a tecla teclando e o gole sem saliva, denunciavam o nervosismo. Uns fumavam, outros tentaram refúgio na goma de mascar, a maioria mandava mensagens via celular ou simplesmente fingia mexer no aparelho para parecer estar distraído. Todos estavam secos, mesmo que cheios de idéias.
Aos poucos todos iam para suas casas, ou jantar em algum restaurante perto. Nas casas silêncio vocal, apenas o barulho da descarga ou da cama velha. Nos restaurantes as mastigadas rompiam o constrangimento dos olhares de cada um ao seu próprio prato. Não conseguiam encarar-se.
O sono não chegou a nenhum deles. Intactos em suas camas, beliches, sofás ou redes, forçavam as pálpebras e imaginavam um belo campo florido, ou uma cena de orgia, a fim de dormirem. Os que moram sozinhos enrolavam os próprios cabelos para passar o tempo agonizante. Os casais escondiam as mãos no bolso do pijama para que elas não se encontrassem com as mãos do outro. Os carecas sozinhos e os casais de pijamas sem bolsos estavam em situação mais preocupante e contorciam-se freneticamente como se estivessem tendo convulsões ou orgasmos. Não eram orgasmos.
No dia seguinte ninguém seguiu a rotina. Os barbudos fizeram a barba, a universitária fez a prova, o gordinho não fez dieta, o intelectual alugou um filme de comédia-romântica, a esposa não depilou a virilha, o marido escreveu uma carta de amor, o porteiro não abriu a porta, a professora deu nota dez e o motorista pegou um táxi. Até mesmo o vagabundo trocou de posição no sofá. A comunicação interpessoal voltava aos poucos, com a cautela de um ladrão arrependido que, porém, não sabe fazer outra coisa a não ser roubar.
O problema estava na hora de trocar de roupa, escovar os dentes ou entrar em elevador de prédio chique. A imagem da peça de teatro voltava à tona, os tormentos rebatiam-se contra a mente como grandes ondas. Desespero. Soube de moças vaidosas que se recusaram a provar um vestido novo e de moços elegantes que deixaram de conferir o penteado por puro medo. Há dois famosos casos, acobertados pela mídia, o primeiro de um senhor que se matou diante de uma poça de água no meio da calçada, e o outro de dois irmãos gêmeos que mataram um ao outro antes mesmo de desejarem-se um bom-dia.
A mudança de rotina, daqueles que ainda estavam vivos, vaidosos e elegantes, não foi aplaudida pelos outros, acostumados e confortáveis com o antes. A continuação da rotina, por sua vez, era vista como pecaminosa pelos mesmos. O entregador de pizza não sabia se entregava as pizzas, para agradar aos outros, ou se as comiam todas, só pelo alívio de mudar um pouco alguma coisa, mesmo odiando pizza (menos a de quatro - queijos, por ser mais queijo do que pizza, afinal são quatro...). A contradição estava dada.
A peça de teatro foi apresentada a cinco meses da data que vos conto este causo e provavelmente a mais de cinco meses da data que todos o lerão. Muitos dos que estiveram na platéia morreram no caminho do tempo até aqui. Os sobreviventes estão fazendo psicanálise e aulas de teatro – com exceção de uma pessoa.
Uma bela mulher, deitada coberta apenas com meu esperma, segurando uma taça de vinho na mão esquerda e um fino cigarro na mão direita, confessou-me em pleno motel (daqueles com espelho no teto acima da cama, se por acaso tiver cama de motel que não os tenham acima de si), que estava na platéia naquele fatídico dia e que estava totalmente curada da perturbação mental que a peça lhe causou. Sorriu-me de forma sincera e aberta. Perguntei-lhe o que, afinal, tinha acontecido. A resposta veio curta como nossa transa, mas suave como o vinho que ainda escorria na minha coxa:
-“A peça chamava-se Espelhos e os atores éramos nós mesmos”. Disse isso apontando ao espelho sob nós dois, de onde vi meu corpo flácido, feio, nojento, totalmente desprotegido e fraco, acompanhado apenas do meu olhar inquisidor e ao mesmo tempo ator de alguma inocência arrependida. Tinha entendido tudo! Estranhamente minha boca sorria de forma cínica e prepotente, mostrando apenas o começo dos dentes, como se estivesse ironicamente diante de alguma comédia, e não de uma tragédia.
Com meu corpo trêmulo, balbuciando palavras sem sentido, senti as cortinas se fecharem.

Por sorte, desta vez, era apenas um orgasmo...

Por Raul Machado
P5
*Poesias
A Incrível História das Vinganças


No buraquinho
Feito pelo tempo
Vê-se o azulejo se mordendo

Mas a parede não grita
E nem de mansinho
O cimento se agita

Naquele buraquinho
Pousou um mosquito
Que apertei com meu dedo

O sangue que nele escorreu
Não era dele, nem da parede
Aquele sangue era só meu.
- - - - - - - - - - - - - - - - - -

Guerra
A faixa de Gaza também é aqui


Rátátá! Pooow!
Ahhhhhhh
Nããããooooo
Plaftt
Snif
Dim-Dim
Há, há
Snif
Rátátá! Snif!
Arghhhh...

E nada mais que seja necessário dizer.
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -


Charmosa


Deixastes teus sapatos
Vermelhos e pequeninos
Escondidos
No obscuro imundo
De meu quarto

Deixastes com eles
Tua luz
Uma luz forte
Sem cor
Sem cor de luz

Em volta do copo de uísque
Seus dedos
Marcados juntos aos meus
E no respingo de tinta
O reflexo de sorriso teu

Deixastes
Um homem abestalhado
Perdido no próprio caminho
Eu.
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Pop-Dadaísmo

Anti-arte?
Artimanha
É um fato
Anti-fato?
Artefato
É de plástico
Seu pote para restos
E o que nos resta?
Arte plástica
Tudo presta
Sua mulher se empresta
Para mil reproduções
Elástico pensamento
Moldável moldura no móvel
E um gráfico olhar
De mãos maleáveis
Que riscam na sua pele
Palavras de uma revista
Que vende tomate em conserva
à prazo,no crédito,à vista
Em homenagem a Tristan Tzara:
Gravadoras
Caso
Mariposa
Mídia
Companheiros
Anos
Salvador
Distante
Sapato
E quando paro de vomitar
Palavras no mictório
Saio pedalando minha cadeira
Em busca de algo óbvio:
A mais nova torradeira
Que Marylin tanto quer ganhar

Poemas de Raul Machado
P6
Pop-Art: A Arte da Produção em Massa e do Cotidiano

Creio que o avô conceitual do movimento da Pop-Art tenha sido o artista, doidão e genial, Marcel Duchamp. O Dadaísmo em si abriu as portas, janelas e outras aberturas, para que a Pop-Art pudesse concretizar-se. Tudo tem potencial a ser Arte e já não podemos mais separá-la do cotidiano, da reprodução industrial e da tecnologia. Se o Dadaísmo mostrou um caminho artístico, a sociedade industrial de produção em massa é o contexto histórico destes artistas, a temática e a forma por qual eles expressam a sua crítica, o seu sarcasmo, sua ironia, sua reflexão, etc.
A Pop-Art está intrinsecamente ligada aos meios de comunicação em massa, como a televisão, o rádio, os panfletos publicitários, entre outros. Está ligada a outras artes, como a fotografia, história em quadrinhos, às técnicas de colagem e ao cinema. Está ligada ao consumo, aos produtos eletrodomésticos, ao design industrial, aos produtos em conserva, às propagandas comerciais, enfim, à produção em massa no geral. Ligada a tudo isto através de uma conexão inspiratória, estética e formal, temática e crítica também. A Pop-Art é crítica tanto em relação à esta sociedade industrial e espetacular (de espetáculo, show, ilusão), quanto à própria Arte tradicional calcada no conceito de “Belas-Artes”. Ela tem o propósito também, se assim podemos falar, de popularizar a arte, imprimindo-a em suportes do cotidiano popular facilmente encontrados no mercado mais próximo de vossas casas. E isto me fez pensar no papel da internet hoje, tanto quanto à reprodutibilidade e a tecnologia, quanto à popularização e distribuição da obra artística.
Além disto, a Pop-Art está relacionada a uma antropologia urbana que tenta retratar a neurose do mundo atual. Pensadores como Marcuse, McLuhan e o compositor John Cage influenciaram esta forma de arte. O conceito de “Reprodutibilidade” de Walter Benjamin e de “Indústria Cultural” de Theodor Adorno também. Como também há influência das cores do movimento hippie, das lutas estudantis da década de 1960 e do movimento estético do Cubismo.
No Brasil a Pop-Art surge com força em 1960-1970, fortemente vinculada com uma crítica à realidade sociopolítica do país, que vivia uma ditadura militar que cerceava e censurava as artes. A Pop-Art brasileira tinha também certa carga do Concretismo e do Realismo Pop, além das óbvias influências dos artistas dos E.U.A e da Europa já consolidados. O movimento tinha força nas capitais, principalmente no Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.
Alguns nomes da Pop-Art no Brasil, dentre centenas: Wesley Duke Lee, Hélio Oiticica, Waldemar Cordeiro, Antônio Dias, Rubens Gerchman, Maria do Carmo Secco, Wanda Pimentel, Nelson Leirner, Ubirajara Ribeiro, Claudio Tozzi, etc.
E também alguns dos nomes mais conhecidos da Pop-Art internacional: Andy Warhol, Roy Fox Lichtenstein, Eduardo Luigi Paolozzi, Richard Smith, Peter Blake, Claes Oldenburg, James Rosenquist, Tom Wesselmann, etc.
Vale a pena dar uma pesquisada neles, já que aqui o espaço é pouco para me aprofundar mais. Se quiserem, podem colocar o senhor google para trabalhar.
Para finalizar, conto-lhes um causo: Eu, ao ver a modelo Gisele Bündchen vestida com um biquíni lotado de rostos do Che Guevara, lembrei-me da Pop-Art. Imaginei Che Guevara usando uma camiseta (e não um biquíni, por favor) onde não estivesse o seu próprio rosto estampado, mas sim o rosto de cada um de vocês, leitores, reproduzidos milhares de vezes, como em um espelho diante de outro. E à venda no website mais próximo de você, é claro.
Da próxima vez, olhe com mais atenção para o seu liquidificador... Ele pode ser Pop, ele pode ser Arte. Ele pode ser Pop-Arte. Mas... O que é mesmo Pop? O que é mesmo Arte? Até mais... Até mais, meus caros!

Por Raul Machado
P7
Salvador: História e Arte no Cotidiano

Música, formas, História, e cores. Tudo isto em abundância e em um só lugar: Salvador. Cidade cheia de contrastes onde a opulência da rica história do Brasil Colônia se contradiz, ou se mistura, com a presente miséria do povo. Cidade amante do mar, onde simplesmente TUDO está relacionado a este infinito espaço de ondas, religião, sobrevivência, etc. E não é a toa que por Salvador inteira se encontrem esculturas de Iemanjá o saudando. Segundo as crenças trazidas pelos escravos africanos ao Brasil Iemanjá é a rainha do Mar, Mãe universal e útero de toda a vida, podendo ser comparada com a Virgem Maria da religião católica. Há quem acredite que o mar só é salgado devido às lagrimas derramadas por Iemanjá pelo abandono de seus filhos (Os orixás, que encarnam forças da natureza e estão associados a múltiplas atividades desempenhadas pelo ser humano).
Aliás, não há interação apenas com o mar, o baiano cultua também a terra, o vento, as cores naturais, o espaço de convívio social e tem orgulho de ser um povo mesclado (índio, afro, europeu, etc.), representado em três gordinhas esculturas na orla da praia de Ondina, cada uma materializando uma etnia, cada uma apontando para a sua origem cardeal, mas todas dividindo o mesmo lugar e em comunicação com os que passam por elas. Uma mistura cotidiana real e nossa, brasileira, que se evidencia de forma vibrante (até mesmo de forma exagerada em infinitas obras) no espaço chamado Salvador.
Vi de camarote, na praia do Forte da Barra, uma linda valsa dançada pelo sol, seduzindo-nos para logo depois esconder-se com toda ternura atrás de montanhas que impecavelmente formavam o cenário de mais um lindo final de dia. O céu, para completar o clima, pincelou o restante de inúmeras cores e bem compôs a cena. No final do espetáculo ouviram-se agradecidos aplausos, pois toda arte tem quem a reconheça.
Vinicius de Moraes também soube apreciar a arte escondida no dia-a-dia, principalmente aquelas em que o homem não havia colocado o seu bedelho. Envolto pela magia baiana, morou um bom tempo em Itapuã, onde viveu seu mais doce romance com Gesse Gessy. Não é por acaso que Vinícius ficou eternizado em uma obra de bronze idealizada por Juarez Paraíso, onde nos mostra uma cena que, com certeza, era cotidiana na praia dos pescadores. Com sua mesa bem posicionada em uma pracinha, que logo recebeu seu nome, Vinicius observa “um mar que não tem tamanho” e, em suas mãos, papel e caneta para que possa capturar algum momento, ou movimento, que o envolva.
Salvador de várias cores, apresentadas em seus colares, em seu artesanato, na decoração, nas fitinhas do Bonfim e em sua arquitetura. Cores que trazem vivacidade e que também representam, para o povo, os orixás, a cultura africana e a história dos escravos. Não só a cultura popular se torna um tema das belas artes, mas também elas passam a ser integrantes da cultura popular. Assim como na Pop Art, vejo na cidade de Salvador o rompimento das barreiras entre a arte e o dia-a-dia. Arte nas inúmeras barraquinhas de acarajé, onde as baianas com seus vestidos brancos cheios de babados refletem em si as formas dos Santos que protegem a todos que vivem a cidade e a sua cultura. Dia-a-dia que transita entre ladeiras estreitas de arquitetura exuberante. Salvador também do Pelourinho (termo dado ao local onde os escravos eram agredidos e humilhados em público) e das inúmeras Igrejas com traços europeus, pomposas, que carregam consigo o peso de um passado não muito simpático e que atualmente interagem com o sincretismo religioso de um povo que não nega as suas origens. Além disto, ruas repletas de história, arte e principalmente vida, que muitas vezes podem passar despercebidas pelos roteiros turísticos.
Enfim, posso afirmar que Salvador não é uma cidade que tenha espaços artísticos, é ela própria uma cidade-arte, onde o cotidiano, a urbanidade, o povo, o misticismo, a natureza, a música, a arquitetura, a história e esta mistura toda, nos “arterizam” a todo o momento. Cultura viva!

Por Natália Pelosi
P8
Obrigado ao mar e ao violão que embalaram a produção, e ao Artério Arteiro (com seus drinques) por fazer a gente brincar e se divertir.
Caio Marques/Fernando Bijos/Gustavo Costa/Natália Pelosi/Raul Machado
http://coletivoarterizar.blogspot.com/
coletivoarterizar@yahoo.com.br
*Desenhos de Natália Pelosi, para seu texto "Salvador: História e Arte no Cotidiano".

Conto

*De Raul Machado

Maurício, Raquel e muito mais coisas


-Raquel, você vem?
-Hoje não Maurício.

Ele bate a porta do apartamento e desce as escadas em direção à rua. Acende uma cigarrilha sabor chocolate, sobe o zíper da jaqueta até o pescoço e começa a caminhar. Maurício é um cara baixinho, meio encorpado e com uma leve barriga proveniente de sua má alimentação. Ele namora Raquel a dois longos anos e mora com ela a três meses, coisa que o deixa um pouco aflito e com medo daquelas festas bregas de casamento. Ele só aceitou essa baboseira de morar junto por duas razões de sobrevivência: dividir o aluguel e transar todo dia. Com certeza estas não eram as razões de Raquel. Maurício tem medo de compromisso ao mesmo tempo em que tem medo da solidão, e toda vez em que ele se dá conta disto ele acende uma de suas cigarrilhas “achocolatadas”, pega uma jaqueta qualquer para se proteger do frio e sai para pegar um ar, dar uma caminhada. Na saída ele sempre pergunta para Raquel se ela quer ir junto, mas é apenas uma pergunta retórica, daquelas que o questionador não espera resposta alguma ou só aceita um tipo de resposta e não importa se o questionado responder qualquer outra coisa, pois quem perguntou não vai levar aquilo em conta. É como perguntar a uma pessoa que acabou de tropeçar e cair de cabeça no chão se a testa dela está doendo, ou se o mendigo quer um trocado. Raquel sabe disso, e mesmo quando está morrendo de vontade de pegar um ar lá fora, ela sempre nega o convite com um perturbador “hoje não”. Nem hoje, nem nunca, oras bolas! Raquel pensa que se ele se sente sufocado por causa dela, é óbvio que se grudar nele e querer discutir sobre isto só vai piorar as coisas.
Maurício está em mais uma destas suas crises e caminha na escuridão da fria cidade. Para se acalmar ele tenta centrar sua atenção em pequenos joguinhos mentais que ele adora, ou então procura observar os lugares por onde está passando. Nesta noite ele começou com os joguinhos, encarando cada pessoa que passava por ele, as vezes fazendo caretas, outras vezes fazendo feições de medo ou alegria, para depois rir das reações assustadas das pessoas. Depois imaginou ser um estrangeiro e ficou fingindo falar com alguém no celular com um inglês muito fajuto. Aí parou um pouco, e começou a contar quantas janelas estavam acesas nos prédios que ele ia passando, já eram onze da noite e poucos ainda estavam acordados, ou pelo menos com as luzes acesas, pois lhe veio à mente que luz acesa não significa que o cara esteja acordado, pois a pessoa pode ter caído no sono e ter se esquecido de apagar as luzes ou então saiu de casa e deixou-as acesas como forma de proteção, ao mesmo tempo em que luzes apagadas não significam pessoas dormindo, e aí a probabilidade de coisas que elas podem estar fazendo é ainda maior.
Maurício, já mais calmo, fazia agora o caminho de volta para casa, desta vez pelo outro lado da calçada. Ele queria ver aquele percurso de outro ponto de vista, até porque já estava se chateando consigo mesmo e precisava novamente de companhia ou então outras distrações. Boa jogada a dele, pois na volta ele acabou passando por uma velha senhora e também por um bêbado.
A velha estava sentada na calçada, descabelada e com as roupas rasgadas. Na sua mão direita ela segurava uma caneca. Maurício parou em frente a ela, remexeu os bolsos e não encontrou nada.
-Desculpe minha senhora, não tenho dinheiro, mas posso lhe oferecer um dedinho de prosa.
-Argg, urggg. Vai-te á merda!
-Boa noite pra você também.

Continuou caminhando e logo esbarrou com o bêbado.

-Óia... Moço....o senhor tem horas?
-Não, mas devem ser onze e meia.
-Vix, to atrasado. O senhor tem carro, moço?
-Não, por quê?
-O moço não ouviu falar que to atrasado não?
-Atrasado pra que, posso saber?
-Pra um encontro com uma bela mulher...
-Sério?
-Eu que bebo e o moço é que fica bobo? To atrasado pra chegar em casa, minha mulher já deve ta puta comigo! A patroa é ciumenta e odeia quando bebo... To fodido, e atrasado. O senhor não tem como me levar pra casa não?
-Não, me desculpe. Por falar nisso, eu também estou atrasado para chegar em casa, minha mulher deve estar preocupada.
-Boa sorte!
-Para você também!

E o bêbado saiu cambaleando, quase tropeçando na velha sentada na calçada mais à frente. Mauricio voltou para o apartamento. Raquel ainda estava sentada no mesmo sofá, vestindo a mesma calcinha preta e o mesmo top branco sem sutiã, vendo televisão. Raquel adora ficar vendo televisão durante a madrugada até pegar no sono e acordar de manhã cedo com a T.V ainda ligada e passando aqueles desenhos infantis. Normalmente os seus sonhos têm alguma relação com o filme que fica passando de madrugada ou qualquer outra coisa que passe na tela, por isso é uma verdadeira arte escolher o canal que a fará dormir e que a acordará no dia seguinte. Desta escolha dependerá o humor dela e de como será o seu dia. Raquel também adora sapatos vermelhos, pintar a unha de preto, fazer sexo de tarde, criar filmes e programas televisivos imaginários, comer pizza gelada de ontem e imaginar o que se passa na cabeça de Maurício.
No exato momento em que Maurício entrou no apartamento, sem falar nada e cheirando à chocolate esfumaçado (ou fumaça de chocolate, né!?), Raquel estava escolhendo um canal para lhe acompanhar durante a noite ao mesmo tempo em que tocava de leve seu clitóris e imaginava Maurício transando com sua melhor amiga. Na hora ela para tudo, olha um pouco assustada para trás, lhe dá boa noite e continua sua busca televisiva. Maurício retribui o cumprimento, abre uma cerveja e diz que vai dormir, seguindo para o quarto.
Quatro horas da madrugada, Raquel acorda com o barulho de uma gritaria. É um filme de terror, escolha errada desta vez. Antes de começar novamente o ardiloso trabalho de escolher um canal, ela resolve passar no quarto para dar um beijo em Maurício.
A luz do quarto está acesa, e ela resolve tirar o seu top branco. No caso dele estar acordado, poderiam transar, pensou. Mas Maurício não estava lá, e um recado em cima da cama avisava:

“Nem sempre luzes acesas significam pessoas acordadas, e vice-versa”

Raquel não entendeu o que aquilo significava, mas logo encontrou outro bilhete, na cabeceira da cama que trazia escrito mais um recado:

“Raquel, você vem?”

-Hoje não, Maurício... Hoje não.

Disse Raquel, enxugando as lágrimas e sorrindo.

Divulgação: Editora Zouk

-Dêem uma olhada no site da Editora Zouk, de Porto Alegre. É possível também comprar os livros pela internet.

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II Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil

-12, 13 e 14 de Maio, em Porto Alegre/RS.

-Mais informações no site: http://www.pucrs.br/eventos/iicillij/?p=capa